O Clube dos Cinco

Ao mesmo tempo que me senti acolhido, o frio na barriga não me deixava esquecer que eu estava em meio a estranhos. “Que bom que você veio Leon.” cumprimentou-me sorridente aquele que sentava-se ao meu lado esquerdo na roda.

O homem, que aparentava seus vinte e tantos anos, usava uma camiseta preta do Nirvana com a frase come as you are estampada nas costas. Ao seu lado, uma senhora de seus oitenta e tantos anos fazia o que parecia ser um pênis de crochê. Na minha frente, do outro lado desse círculo peculiar, um homem de idade indeterminada trajava um terno amarelo com uma flor roxa na lapela, com direito a cartola dourada e bengala com ponta de caveira. Ao seu lado, parecendo a pessoa mais comum do mundo, uma mulher de cabelos loiros, com as raízes pretas já aparecendo, trajando uma saia jeans e uma blusa branca. Para fechar a roda, ao meu lado direito um cachorro da raça husky siberiano.

O homem de terno levantou-se e com gestos suntuosos começou a falar: “Minhas senhoras e meus senhores…” o cão protestou “AUF”, “…e caninos” corrigiu o senhor de cartola brilhante. “Quero iniciar a noite de hoje agradecendo pela presença de vocês em um dia tão especial.” Ele retirou um lenço de um dos bolsos internos de seu paletó e enxugou uma lágrima inexistente que escorria do seu olho direito. “Fico muito emocionado, e por que não dizer honrado, com a escolha que fizeram ao estar em tão solene e importante tarde na história já consagrada de nosso seleto grupo.” O elegante senhor virou-se para a moça loira ao seu lado “Maria Helena de Albuquerque Figueiroa… por muitos anos você me fez o homem mais feliz ao pisar na superfície desse mundo material ao ter dito um sonoro e sincero SIM no dia vinte e dois de fevereiro de dois mil e dois.” ele pegou as mãos de Maria Helena de Albuquerque Figueiroa e fitou-a diretamente no olhos. A moça ficou corada e levantou-se prontamente.

“No entanto, triste foi o dia em que me trocaste por aquele cachorro…” novo protesto “AUF”, “…perdão, aquele traidor e projeto de defecação humana que um dia chamei de primo.” O homem fã de Kurt Cobain levantou-se de pronto e colocou sua mão esquerda no peito. “Maldito dia em que me perdi nos teus suculentos e insaciáveis lábios Maria Helena de Albuquerque Figueiroa. Você não me fez perder apenas a amizade e confiança de meu primo, como também destruiu a minha vida quando escreveu aquela carta cheia de mentiras para minha tia avó Adelina do Morro do Salgueiro que morava na rua Lino Borbagato número 35 ao lado do sobradinho da dona Silvana.”

Neste exato momento todos sentaram-se e a senhorinha que terminava seu bem bordado falo de crochê levantou-se com certa dificuldade.

“Meu querido sobrinho neto, Maria Helena de Albuquerque Figueiroa não escreveu nenhuma mentira. Posso atestar e jurar perante o Papa de que cada parágrafo, palavra, sílaba e letra de sua carta não diziam mais do que eu até então já sabia… que Bertino tinha escondido o presunto de parma embaixo do criado mudo!”

Todos olham atônitos para Bertino.

“Eu… eu não sabia que a senhora sabia.”

Dona Adelina joga a macia jeba no rosto de Bertino e senta-se novamente, virando o rosto em desprezo.

Bertino pega a brachola em suas mãos e lágrimas vertem de seus olhos. “Eu realmente não sabia que a senhora sabia… me perdoe Dona Adelina. Eu não queria o mal de Tamara… eu…”

A loira avança pra cima de Bertino e arranca a estrovenga das mãos do pobre homem. “Não ouse tocar no nome dela seu monstro. Você sabia exatamente o que estava fazendo quando decidiu ir até o quarto dela com aquele presunto e… e… esconder embaixo do criado mudo!”

O clima ficou pesadíssimo. Todos estavam com os olhos marejados ao se lembrar de Tamara. Até mesmo Tobi parecia ter parado de balançar o rabo.

Após cinco minutos de silêncio que mais pareceram cinco horas, a porta se abriu atrás de mim e um senhor, aparentando seus cinquenta e poucos anos adentra o recinto. Ele trajava uma camiseta polo, calça jeans e tinha um bigode que daria inveja a qualquer pessoa que não tivesse bigode.

“Venho informar-lhes que o tempo de vocês acabou. Por favor dirijam-se ao balcão da recepção para marcar um novo horário, mas já vou avisando que estamos lotados até a metade de 2021.”

A indignação é unânime, mas a hora extra sem reserva custava o dobro.

Bertino foi o primeiro a se levantar. Ele parou por uns instantes na frente de Dona Adelina, mas ela se recusou a olhar aquele que escondeu o presunto de parma embaixo do criado mudo, levando Tamara a preferir a vida em Veneza ao ficar mais um minuto naquela casa.

Tobi saiu em seguida. O rabo já esquecendo das mazelas da vida, já que a vida dos cachorros é muito curta para guardar rancor.

Maria Helena de Albuquerque Figueiroa é a terceira a se levantar. Ao passar por mim, ela aperta um papel contra a minha mão e por um segundo posso ver as lágrimas em seus olhos.

Dona Adelina levantou-se com dificuldade e pegou a pichuleta que havia caído no chão quando Maria Helena de Albuquerque Figueiroa havia se levantado. Com dificuldade ela dirigiu-se para a porta, mas parou no meio do caminho quando Lino retirou uma arma debaixo da frase mais clichê para uma camiseta de banda de rock que já existiu na face da Terra.

“Eu não aguento mais tanta pressão. Não vale a pena viver longe do amor impossível!”

Dois tiros ecoaram pela sala.

Dona Adelina terminou seu caminho até a porta enquanto o sangue escurecia o terno que um dia foi tão amarelo quanto os raios do sol.

Lino foi o quinto a dirigir-se para a saída, mas parou subitamente quando, atônito, segurei seu braço.

“O que você fez?”

Ele guardou novamente a arma em sua cintura, ficou de frente para mim e colocou um mão em cada um dos meus ombros.

“Agora você tem que vir para a próxima reunião, afinal de contas… esse é O Clube dos Cinco.”




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